Viver para trabalhar ou trabalhar para viver?

Ei, você? É, você mesmo… Você acha que pode mudar o mundo de alguém?

 

CRISE. Parece que essa é a palavra de ordem nos dias de hoje, tudo que conversamos gira em torno dela. Pois bem, cabe perguntar: – Como estamos encarando nossa oportunidade nesta encarnação?

 

Vivemos para trabalhar, ou trabalhamos para viver? Vamos lá, há muito tempo atrás, quando ainda não éramos tão desenvolvidos, chegamos aqui com o foco de desbravar o mundo, pegamos tudo que encontramos pela frente e transformamos em alguma coisa, bens e afins.

 

Com o passar do tempo, percebemos que podíamos mais. Aos poucos, estamos entendendo que o que nos deve mover é o respeito mútuo, o convívio em um ambiente de paz e tranquilidade.  Tudo bem que ainda nem todos entenderam essa necessidade, mas vamos caminhar e, talvez, isso fique mais claro, quando internalizarmos a mensagem: “[..] toda ocupação útil é trabalho”1.

 

Jesus, nosso irmão maior e amigo, mostra-nos, em diversos momentos de sua passagem pela Terra, que temos todas as condições de ser úteis, em qualquer momento e situação.

 

Livro – Jesus no Lar, Mensagem 38 – O Argumento Justo.

Jesus no Lar

À noite, em casa de Simão, transparecia um véu de tristeza na maioria dos semblantes.

 

Tadeu e André, atacados horas antes, nas margens do lago, por alguns malfeitores, viram-se constrangidos à reação apressada. Não surgira consequência grave, mas sentiam-se ambos atormentados e irritadiços.

 

Quando Jesus começou a falar acerca da glória reservada aos bons, os dois discípulos deixaram transparecer, através do pranto discreto, a amargura que lhes dominava a alma e, não podendo conter-se, Tadeu clamou, aflito:

 

— Senhor, aspiro sinceramente a servir à Boa Nova; contudo, sou portador de um coração indisciplinado e ingrato. Ouço, contrito, as explanações do Evangelho; lá fora, porém, no trato com o mundo, não passo de um espírito renitente no mal. Lamento… lamento… mas como trabalhar em favor da Humanidade nestas condições?

 

Embargando-se-lhe a voz, adiantou-se André, alegando, choroso:

 

— Mestre, que será de mim? Ao seu lado, sou a ovelha obediente; entretanto, ao distanciar-me… basta uma palavra insignificante de incompreensão para desarmar-me. Reconheço-me incapaz de tolerar o insulto ou a pedrada. Será justo prosseguir, ensinando aos outros a prática do bem, imperfeito e mau qual me vejo?!…

 

Calando-se André, interferiu Pedro, considerando:

 

— Por minha vez, observo que não passo de mísero espírito endividado e inferior. Sou o pior de todos. Cada noite, ao me retirar para as orações habituais, espanto-me diante da coragem louca dentro da qual venho abraçando os atuais compromissos. Minha fragilidade é grande, meus débitos enormes. Como servir aos princípios sublimes do Novo Reino, se me encontro assim insuficiente e incompleto?

 

À palavra de Pedro, juntou-se a de Tiago, filho de Alfeu, que asseverou, abatido:

 

— Na intimidade de minha própria consciência, reparo quão longe me encontro da Boa Nova, verdadeiramente aplicada. Muita vez, depois de reconfortar-me ante as dissertações do Mestre, recolho-me ao quarto solitário, para sondar o abismo de minhas faltas. Há momentos em que pavorosas desilusões me tomam de improviso. Serei na realidade um discípulo sincero? Não estarei enganando o próximo? Tortura-me a incerteza… Quem sabe se não passo de reles mistificador? Outras vozes se fizeram ouvir no cenáculo, desalentadas e cheias de amargura.

 

Jesus, porém, após assinalar as opiniões ali enunciadas, entre o desânimo e o desapontamento, sorriu, tocado de bom-humor, e esclareceu:

 

— Em verdade, o paraíso que sonhamos ainda vem muito longe e não vejo aqui nenhum companheiro alado. A meu parecer, os anjos, na indumentária celeste, ainda não encontram domicílio no chão áspero e escuro em que pisamos. Somos aprendizes do bem, a caminho do Pai, e não devemos menoscabar a bendita oportunidade de crescer para Ele, no mesmo impulso da videira que se eleva para o céu, depois de nascer no obscuro seio da terra, alastrando-se compassiva, para transformar-se em vinho reconfortante, destinado à alegria de todos. Mas, se vocês se declaram fracos, devedores, endurecidos e maus e não são os primeiros a trabalhar para se fazerem fortes, redimidos, dedicados e bons em favor da obra geral de salvação, não me parece que os anjos devam descer da glória dos Cimos para substituir-nos no campo de lições da Terra.

 

O remédio, antes de tudo, se dirige ao doente, o ensino ao ignorante…

 

De outro modo, penso, a Boa Nova de Salvação se perderia por inadequada e inútil…

 

As lágrimas dos discípulos transformaram-se em intenso rubor, a irradiar-se da fisionomia de todos, e uma oração sentida do Amigo Divino imprimiu ponto final ao assunto.

 

Será que hoje estamos sendo úteis em nossa escola, em nossa família, na casa espírita e no lar?

 

Tem sido uma dúvida recorrente: – É justo sermos remunerados no trabalho profissional e não remunerados no trabalho voluntário? Ou o que era para ser um trabalho voluntário é remunerado, tornando-se um trabalho profissional?

 

Explicando melhor, todos já devem ter ouvido falar em projetos sociais, nos quais um grupo de pessoas atua em hospitais como palhaços. Tudo começou como trabalho voluntário de atenção ao próximo, porém, hoje, temos projetos com o mesmo objetivo de atendimento, porém os artistas (palhaços) que atuam são profissionais não voluntários, ou seja, recebem para fazer duas visitas por semana em turnos de 6 horas. E mais, eles ampliaram o trabalho que, originalmente, era apenas em hospitais, passando a atuar em empresas, junto aos colaboradores, para mudar o clima organizacional e aumentar a produtividade e bem estar de todos. Interessante isso, não?!

 

No Brasil, o trabalho voluntário é regulamentado pela Lei 9.608/1998, “Considera-se serviço voluntário, para os fins desta Lei, a atividade não remunerada, prestada por pessoa física a entidade pública de qualquer natureza, ou a instituição privada de fins não lucrativos, que tenha objetivos cívicos, culturais, educacionais, científicos, recreativos ou de assistência social, inclusive mutualidade[..]”

 

Pegando como exemplo projetos que, no início, eram desenvolvidos por voluntários e passaram a uma profissionalização do trabalho (sentido de receber proventos), nesta mesma linha de pensamento e sem levantar qualquer julgamento, com o serviço profissionalizado, mais pessoas foram alcançadas/beneficiadas pela tarefa, correto?

 

Então, façamos outra reflexão: por que, ao envolver dinheiro, mais pessoas se apresentam para o trabalho e, com isso, ele cresce? Estou ajudando o próximo, ou estou me sustentando/sobrevivendo? Claro que o sustento é necessário, não podemos negar, mas, se tivéssemos mais voluntários, poderíamos alcançar mais gente do mesmo jeito, não é? Vamos pensar também que trabalho voluntário é doação de tempo e note que essa doação pode ser extremamente profissional e especializada: médicos que atendem de graça, palhaços formados que fazem atividades em hospitais gratuitamente, advogados que auxiliam a população mais carente, psicólogos que atendem gratuitamente pessoas em risco social, etc…

 

Na lista de observações e cuidados que devemos ter vem o RESPEITO, isso, o respeito. Tudo podemos naquele que nos fortalece, ou seja, precisamos ter o olhar amoroso e respeitoso para as pessoas que, de alguma forma, nos fortalecem, como os nossos pais, irmãos, amigos, mas também para pessoas que nem são tão próximas, como o líder espírita, o atendente do mercado e da padaria, todos, sem exceção, merecem o nosso respeito. Podemos não concordar com a visão do outro, mas temos o dever de respeitá-lo.

 

Já ouviu a frase: “Respeite meus cabelos brancos?” Fazendo uma carinhosa comparação entre cabelo branco e a melhor idade, vemos, na questão 685 de O Livro dos Espíritos: “Tem o homem o direito de repousar na velhice?” Os Espíritos respondem: “Sim, que a nada é obrigado, senão de acordo com as suas forças.” E Eles continuam, no item a: “Mas, que há de fazer o velho que precisa trabalhar para viver e não pode?” Os Espíritos afirmam “O forte deve trabalhar para o fraco. Não tendo este família, a sociedade deve fazer as vezes desta. É a Lei da caridade.”

 

Atualmente, temos muitos problemas de relacionamento, quando se exalta a hierarquia de forma autocrática, e frases de efeito são verbalizadas: “meu pai não sabe de nada”,  “o chefe não sabe de nada”, “deixa que eu sei fazer melhor”. Essas atitudes costumam atingir as pessoas em cheio e, às vezes, falamos no automático, sem pensar, podendo, com isso, ferir a quem, de alguma forma, estava querendo nos auxiliar. A empatia é fundamental nesses momentos, para nos colocar no lugar do outro, é uma ótima receita para uma relação saudável na sociedade.

 

Viver para trabalhar, ou trabalhar para viver? Porque não os dois?

 

 

Referências:

1 – KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – Questão 675

2 – Jesus no Lar, Mensagem 38 – O Argumento Justo.

3 – KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – Questão 678

4 – Consultado em 12/06/17 : http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9608.htm

5 – KARDEC, Allan. O livro dos espíritos – Questão 685



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