Ser amigo é…

Saber ouvir, ter paciência, apoiar, proteger, dizer sim, dizer não, andar ao lado, estar junto, mesmo que fisicamente muito distante … São tantas as dimensões da amizade, que nos escapa a possibilidade de defini-la com precisão, mas não podemos esquecer que uma das dimensões mais singelas da amizade é o AFETO.

 

Segundo o dicionário, afeto é “sentimento de intenso carinho que se tem”[1]. Com certeza, temos muito carinho por nossos amigos, sendo eles nossos familiares ou amigos com que a vida nos presenteia, mas é inegável que uma das maiores expressões de afeto que podemos exemplificar é o amor da mãe para com seus filhos.

Uma demonstração linda dessa dimensão da amizade ocorreu no interior dos navios negreiros que partiam da África em direção ao continente americano. Os africanos eram retirados de seus lares, aprisionados e colocados nos porões dos navios. Fome, sede, calor, medo, insegurança extrema do futuro, dentre outras intensas emoções, foram vivenciadas durante a travessia do Atlântico.

 

Eram viagens muito difíceis, longas e cansativas, e muitas pessoas vieram apenas com a roupa do corpo. Algumas viagens duravam meses. Muitos nem chegaram, morreram pelo caminho. Famílias inteiras lá estavam sem condições de explicar para seus filhos o que estava acontecendo. As crianças choravam assustadas, porque viam a dor e o desespero dos adultos. As mães negras, então, para acalentar suas crianças, rasgavam com as próprias mãos tiras de pano de suas saias e faziam bonecas para os pequenos brincarem. Nasciam assim as abayomis, pequenas bonecas feitas de pano e sem costura alguma, apenas com nós ou tranças.

 

A palavra abayomi tem origem no iorubá e significa aquele que traz felicidade ou alegria. É como oferecer ao outro o que se tem de melhor, algo que carregue nossas melhores qualidades. Dar uma boneca abayomi é um ato de nobreza, é dar a uma pessoa querida aquilo de melhor que temos a oferecer, então, se as mães negras ofereciam a boneca em sinal de amor, carinho, consolo, arrancando com as unhas pedaços de suas roupas, imagine quão nobres eram os sentimentos dessas mães [2]. Poderia estar mais bem representado o “sentimento de intenso carinho que se tem”, AFETO?!

Como anda a afetividade nos dias de hoje? Será que é um sentimento que está esquecido nos nossos corações?

Em o Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo 11 (Amar ao próximo com a si mesmo) [2], encontramos:

O Amor é de essência divina e todos vós, do primeiro ao último, tendes, no fundo do coração, a centelha desse fogo sagrado …

… mas qualquer coisa que façam, não saberão sufocar o germe vivaz que Deus lhes depositou nos corações, na sua criação; esse germe se desenvolve e engrandece com a moralidade e a inteligência, e, ainda que comprimido pelo egoísmo, é a fonte de santa e doces virtudes que fazem as afeições sinceras e duráveis, e vos ajudam a transpor a rota escarpada e árida da existência humana.

Joana de Ângelis [4] classifica a afetividade como um sentimento inato no ser humano, acrescentando ainda que:

“A afetividade proporciona forças que se transformam em alavancas para o progresso, alterando as faces desafiadoras da existência e tornando a jornada menos áspera, porque se faz dulcificada e esperançosa.”

 

Ainda necessitamos muito do afeto, das experiências de carinho. Amar e sentir-se amado é nosso objetivo principal em cada encarnação, no entanto muitos são os indivíduos que enganam a si mesmos, buscando, em primeiro lugar, a sabedoria, o dinheiro e o poder.

 

Trocar afeto pode ser, no entanto, um potencializador de progresso. Joanna de Ângelis nos lembra de que, sem esta troca, “a vida perderia o seu significado, tão eloquente se apresenta na formação da personalidade e da estrutura psicológica do homem e da mulher” [3].

 

Importante analisar o sentido que Joana de Ângelis trata a manifestação da afetividade, tanto pela polaridade positiva quanto pela negativa:

“Quando se pode entender e se tem olhos de ver, é possível distinguir a afetividade nos mais variados sentimentos humanos, a saber:

o egoísmo é a afetividade a si mesmo;

o ressentimento é a afetividade egoísta que não foi comprazida;

a bondade é a afetividade que se expande;

o ciúme é a afetividade insegura e possessiva;

o trabalho é a afetividade ao dever;

o ódio é a afetividade que enlouqueceu;

o auxílio fraterno é a afetividade em ação;

a vingança é a afetividade que enfermou;

a preguiça é a afetividade adormecida;

o amor é a afetividade que se sublima;

a caridade é o momento máximo de afetividade …”

 

No nível evolutivo atual, a maioria dos indivíduos sofre com questões afetivas, transformando sua vida numa sucessão de experiências dolorosas, na maioria das vezes por falta de habilidade para viver em harmonia, entretanto a centelha divina que habita em nós e a extrema necessidade de felicidade nos conduzem à expressão do afeto pelo outro nas nossas variadas relações com aqueles que caminham conosco em cada encarnação.

 

Retornando ao exemplo das mães no interior dos navios negreiros, a confecção da boneca representava uma extrema demonstração de afeto pelos filhos, apesar da difícil condição em que se encontravam. As mães deixavam de pensar nelas e proporcionavam, dentro do possível, condições de amor e felicidade aos seus filhos. Nunca podemos esquecer que filhos são páginas em branco de um livro, e os pais têm a responsabilidade de escrever os valores, a moral, preparando-os para a vida. Lembrando sempre que é necessário educar com amor, paciência, carinho e olhos de caridade. Pais têm uma responsabilidade muito grande pelo compromisso assumido.

 

Nós, espíritos imortais na escola da vida, temos compromissos assumidos com todos os irmãos de nossa convivência terrestre. A afetividade tem o papel fundamental na transformação do ser imortal. Finalizamos com as sábias palavras de Joanna de Ângelis [3]:

“Em qualquer circunstância libera a tua afetividade desencarcerando-a, a fim de que se expanda e beneficie os demais.

A afetividade é portadora de especial conteúdo: quanto mais se doa, mais possui para oferecer.”

 

REFERÊNCIAS

 

[1] Dicionário online de Português, https://www.dicio.com.br/

[2] Blog Ideias Graciosas, http://ideiasgraciosas.blogspot.com.br/2012/11/bonecas-abayomi.html

[2] Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo, 120 ed., FEB, 2002.

[3] Ângelis, Joanna de (espírito); Franco, Divaldo Pereira (psicografado por). Diretrizes para o êxito. 2. ed. Salvador, BA: Livr. Espírita Alvorada, 2004. Cap. 26.

 

Dica: Visite [2], aprenda a fazer bonecas Abayomi e distribua afeto para aqueles que ama!



Uma resposta para “Ser amigo é…”

  1. Bruno Cabral disse:

    Que linda a história das Abayomis!

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