Quando a informação vira desinformação

Como lidar com os boatos na Internet

 

“Conhecer a verdade

não é o mesmo que amá-la

 e amar a verdade

 não equivale a deleitar-se com ela.”

 

Confúcio

 

Há algum tempo, a internet foi tomada pela notícia de que o apresentador Jô Soares teria falecido. É muito provável que você tenha acreditado nisso por algum momento antes que a verdade viesse à tona. Quantos outros artistas já sofreram com esses boatos? Muitos!  E o caso de uma mulher agredida pelos vizinhos no Guarujá, em São Paulo. Tudo porque ela se parecia com uma acusada de sequestrar e praticar magia negra com crianças, cuja foto foi divulgada e compartilhada por uma página do Facebook. O boato virtual acabou na morte da mulher, que não resistiu às agressões.

 

Extremo ou não, esse tipo de comportamento, de passar adiante uma informação sobre a qual não se tem certeza, é bem comum nesta época de conteúdo rápido. Aliás, existe até site em que é possível gerar notícias falsas – olha o perigo de novo!

 

No final dos anos 90, quando a internet ainda era acessada por computadores conectados a linha telefônica, já existia o hábito de enviar notícias por mensagens de e-mail a grupos de amigos. Os boatos sempre existiram, os assuntos variavam entre revelações de escândalos, política, dicas de tratamentos de saúde alternativos ou alertas sobre perigos em geral.

 

Com a evolução da tecnologia, mais pessoas se conectaram e, nesse período, surgiram as redes sociais, o que possibilitou a intensificação dos boatos. As redes são um tesouro de acesso à informação, mas existe uma outra visão sobre o tema: a percepção de que, nelas, as pessoas estreitam sua visão de mundo e consomem só aquilo com o que já concordam, mesmo que aquilo não seja positivo ou que prejudique alguém.

 

 

Será que fazemos parte desse senso comum?

 

O senso comum não se preocupa em buscar informações sobre os assuntos que está a julgar. Preocupa-se apenas em proferir uma sentença conclusiva, definitiva e que julga ser irrefutável. “Os políticos são bandidos”; “não gosto de política”. Pessoas que baseiam sua direção no senso comum não se preocupam em pesquisar, acham mais cômodo generalizar.

 

São essas pessoas que normalmente se unem para reclamar de coisas que não querem resolver. Dizem: “ninguém faz nada!”. Você já ouviu isso? É um pensamento resignado, conformado com sua condição, sem vontade de tomar as rédeas da situação e mudar seus caminhos.

 

Mas, se há um buraco enorme na rua, em frente à minha casa, não é obrigação da prefeitura tampá-lo? E se não for tampado? Você diria “a culpa é minha, pois quem colocou esse prefeito lá fui eu, quem votou nos vereadores que deveriam fiscalizar o prefeito e separar recursos para cuidar das nossas ruas fui eu. Eu é que deveria fiscalizá-los diariamente”?

  

Senso comum x Senso crítico

 

Platão, ao escrever o Mito da Caverna, relacionou os homens presos ao mundo do senso comum, que residem no mundo limitado do “é o que todo mundo fala”, “é o que todo mundo faz”. Um mundo até certo ponto ingênuo, de ideias prontas, certo de que está proferindo sempre uma resposta definitiva: “a grande verdade é que…”.

 

Por outro lado, vem o senso crítico, parte do princípio do estudo do como conhecer, do uso da razão e da capacidade de avaliar, julgar e discernir com equilíbrio. O crítico tem o seu pensamento ligado ao futuro.

 

Senso comum
(Doxa; opinião; crença)

Senso crítico
(Episteme; saber racional)

Mundo sensível; pensamento passivo, pensado, ingênuo, adaptativo, de grupo, ligado ao passado, confiante, de ideias constituídas, prontas.
Pessoas de personalidade conformista, resignada, conservadora.
Mundo inteligível; pensamento ativo, transformador, pensante, pessoal, de ideias constituintes, sempre em ação e mudança.
Pessoas de personalidade revolucionária, sediciosa, contestadora.
Preconceitos; ideologias; passividade e atuação ligada ao instinto animal. Reflexão, ideário, ação, pensamento racional, atitude filosófica.

 

O senso comum se impõe sobre o senso crítico com mais intensidade nas redes, a circulação de rumores é um processo comunicacional, resultado de ações coletivas, onde a informação não confirmada se propaga em rede e circula com a intenção de ser tomada como verdadeira.

 

Por que isso acontece? Somos responsáveis?

O rumor não é inofensivo, é prejudicial, podendo gerar graves consequências quando se trata de uma informação falsa. Nesta condição, sua disseminação pode ser motivo de preocupação, dependendo da rapidez com que ele é passado adiante e da dimensão alcançada. A internet, além de potencializar, facilita a produção e a busca de informações dos denominados boatos virtuais. Consequentemente, a Internet torna-se o meio ideal para a rápida propagação de um grande número de informações falsas a um número muito maior de indivíduos em curto espaço de tempo.

 

Com um pouco de criatividade, é possível produzir facilmente um boato e, em pouco tempo, conquistar o engajamento de milhares de internautas. Quando isso ocorre com o apoio de figuras públicas por meio de compartilhamento nas suas redes sociais, a repercussão da postagem é ainda maior.

 

A recomendação dos especialistas é que, antes de compartilhar qualquer informação, seja verificada a sua veracidade. Não é por estar publicado em blogs, sites, redes sociais, ou compartilhado em grupos do WhatsApp que necessariamente é VERDADE.

 

 

Exemplo de frase falsa que circula pela internet, que não pertence nem a Machado de Assis, nem a Monteiro Lobato (Foto).

 

Existe muito conteúdo criado apenas para conquistar seguidores e acessos, e assim monetizar o site ou blog através de anúncios. E, na dúvida, é mais apropriado abrir mão de eventuais curtidas recebidas a contribuir para a divulgação de boatos.

 

Recentemente, páginas falsas no Facebook anunciaram sorteios de automóveis de luxo e smartphones de última geração para os seguidores que curtissem a publicação e a compartilhassem em seus perfis. Uma das montadoras mencionadas nos falsos sorteios já se pronunciou nas redes sociais e, por declaração, desmentiu a existência de qualquer sorteio.

 

Mas, afinal, como identificar um boato na internet? 

Conheça alguns dos sites que auxiliam os leitores interessados em pesquisar sobre a existência de boatos divulgados na internet:

 

E-farsas – É um dos precursores do gênero. O site tem mais de 10 anos de existência e nele é possível pesquisar sobre a maior parte dos boatos amplamente difundidos na rede. O autor do site, além de pesquisar a origem dos boatos, tenta fazer uma análise minuciosa dos pontos contraditórios contidos na informação que está sendo divulgada.

 

Boatos.org– É excelente alternativa para checagem de histórias espalhadas pela internet. O site segue uma linha editorial semelhante a encontrada no e-Farsas, mas pode variar no que diz respeito a análise da história. Nem sempre o que é publicado num site é repetido no outro.

 

Fatos & Boatos – É um site criado pelo Governo Federal e lançado no final de 2015. Nesse site, são esclarecidos fatos relacionados à política.

 

Verdades e Boatos – É um site institucional desenvolvido pela Coca-Cola para esclarecer os boatos espalhados sobre os refrigerantes produzidos pela empresa.

 

 

O Método Kardequiano

Allan Kardec levantou e testou diversas hipóteses para explicar os fenômenos mediúnicos: fraude, alucinação, forças físicas, sonambulismo, clarividência, transferência de pensamentos (telepatia) e comunicação de espíritos desencarnados. Concluiu que todas essas hipóteses eram necessárias para explicar a totalidade dos fenômenos. Todavia, por concentrar sua atenção naquelas experiências que ele considerava envolver a comunicação de espíritos, buscou desenvolver um método para obter informações úteis e confiáveis sobre a dimensão espiritual do universo.

 

O método de comprovação mediúnica de Kardec passou pela investigação e análise dos fenômenos, para chegar a conclusões fundamentadas na razão, tal como ensina a Ciência; no bom senso, segundo as diretrizes da intuição ou da inspiração. Utilizando a aplicação do método experimental, observação cuidadosa, comparação, dedução de consequências, dos efeitos remontar às causas, por dedução e encadeamento lógico dos fatos, validação do resultado somente quando resolve todas as dificuldades da questão.

 

Santo Agostinho afirma: “Observai e estudai cuidadosamente as comunicações que recebeis; aceitai o que a vossa razão não rejeitar; repeli o que a choca; pedi esclarecimentos sobre as que vos deixam na dúvida”.

 

É por isto que Kardec afirma na Revista Espírita de 1869 que as comunicações dos Espíritos são opiniões pessoais que não devem ser aceitas cegamente. Que, em nenhum momento, devemos renunciar ao nosso julgamento e livre-arbítrio, pois seria dar prova de ignorância e leviandade aceitar como verdades absolutas tudo o que venha dos Espíritos. Eles dizem o que sabem e cabe a nós submeter-lhes os ensinos ao controle da lógica e da razão.

 

   “Na dúvida, abstém-te, diz um dos vossos antigos provérbios. Não admitais, pois, o que não for para vós de evidência inegável. Ao aparecer uma nova opinião, por menos que vos pareça duvidosa, passai-a pelo crivo da razão e da lógica. O que a razão e o bom senso reprovam, rejeitai corajosamente. Mais vale rejeitar dez verdades do que admitir uma única mentira, uma única teoria falsa.”

Erasto (Livro dos Médiuns, cap. XX. )

 

Como discernir o verdadeiro do falso?

 

A produção de conteúdo falso é tão excessiva atualmente, que não é só o público leigo que cai nessas armadilhas. Há algum tempo, a apresentadora Fátima Bernardes leu em seu programa matinal uma carta de amor atribuída ao ator Brad Pitt. Na verdade, o conteúdo dela é de autoria desconhecida e viralizou na web como se tivesse sido escrita por ele. No dia seguinte ao programa, Fátima se desculpou e corrigiu o erro.

 

Alguns sites e perfis já são conhecidos na internet por publicarem conteúdo falso ou de humor – como o Sensacionalista, o G17, o blog Não Salvo, o Piauí Herald e a seção Kibe Loco 2030, do blog Kibe Loco. Por via das dúvidas, é melhor desconfiar na próxima vez que uma notícia soar estranha.

 

Algumas dicas:

 

  • Para acompanhar as notícias do Brasil e do mundo, curta e siga os perfis oficiais dos veículos de notícias. O que for publicado neles dificilmente será uma inverdade.

 

  • Está em dúvida se determinado perfil ou página é verdadeiro? Os oficiais possuem selos de verificação, tanto no Twitter quanto no Facebook.

 

  • Ao se deparar com uma notícia inusitada, faça uma busca no Google sobre o assunto. Caso ela não tenha sido publicada em outros sites, pode desconfiar de conteúdo falso.

 

  • Antes de compartilhar esse tipo de postagem, leia os comentários publicados. É possível que neles outros internautas já apontem que aquele conteúdo é mentiroso.

 

  • Não leia somente os títulos das matérias. Nem sempre ele descreve exatamente o que está escrito no conteúdo. Analise tudo até o final.

 

 

 

Referências:

O que é o Espiritismo – Allan Kardec

O Livro dos Médiuns – Allan Kardec

O método de Allan Kardec para investigação dos fenômenos mediúnicos (1854-1869) Dissertação de Mestrado – Pimentel, Marcelo Gulão.

Allan Kardec – Zêus Wantuil – Francisco Thiesen (Allan Kardec – Volume 01)

www.infoescola.com



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