Pertencimento Familiar

Antes de falarmos um pouco sobre pertencimento familiar, convidamos você a assistir a um pequeno vídeo introdutório que, de forma lúdica, ilustrará muito bem o tema.

 

 

Nesse vídeo, nós temos o seguinte cenário: um grupo de pássaros da mesma espécie passa a realizar um comportamento coletivo de exclusão de um novo integrante, até o ponto em que todo aquele grupo, em desequilíbrio, sofre as consequências da indesejável atitude.

Agora vamos imaginar todos os pássaros do vídeo como sendo membros de uma (nossa) família. Será que essa imagem tem sido comum nos (em nossos) círculos familiares?

 

afastamento

 

A atitude de exclusão, segregação, ou isolamento de um ou mais membros de um círculo familiar é movimento contrário ao princípio do pertencimento de que estamos falando.

Pelo princípio ou valor do pertencimento, entende-se que todos os integrantes da família possuem o mesmo direito de pertencer àquele núcleo ou grupo, de forma que a agressão a esse direito não traz prejuízos apenas aos excluídos, mas, sim, a todo o sistema familiar. Quer dizer que, por mais que haja diferenças entre os familiares, por mais que haja diferenças entre os níveis econômicos ou de formação educacional, religiosos ou de cor, não há, no núcleo familiar, quem seja mais ou menos pertencente à família.

E foi essa justamente a imagem retratada no vídeo dos pássaros.

A atitude de exclusão de um dos membros, por ser diferente, causou um desequilíbrio generalizado, até chegar ao ponto em que todos sofreram as dores daquele comportamento contrário ao acolhimento e à inclusão.

Isso representa, de modo infinitamente simplificado, uma das conclusões dos estudos de Bert Hellinger, ao tratar da “Constelação Familiar”, categorizando o pertencimento familiar como uma das leis sistêmicas que seriam necessárias ao equilíbrio e ao desenvolvimento do amor no grupo familiar.

 

– Muitas vidas enlaçadas, muitos nós…

É muito comum em nossos círculos familiares que um membro da família não se sinta em casa, não aceite o lugar que ocupa na família, ou que haja falta de intimidade entre os familiares, possivelmente levando a situações em que surge o desejo de trocar de família ou de sair de casa.

Quem nunca sentiu isso?

 

bartfugindo

 

Esse misto de sentimentos que se vive nas relações familiares não é por acaso e o Espiritismo traz importantes contribuições para as nossas reflexões.

Sabemos que dentro de um lar se reencontram Espíritos que, por necessidades diversas, precisam (e que muitas vezes pedem para) viver e conviver sob o mesmo teto, a fim de que, juntos, reaprendam a conjugar verbos importantes na caminhada evolutiva. Não é sem razão que André Luiz afirma, no livro Missionários da Luz, de psicografia de Chico Xavier, que “o lar não é somente uma moradia dos corpos, mas, acima de tudo, a residência das almas”.

Nesse sentido, o escritor espírita Joamar Zanolini Nazereth, em seu livro Um Desafio Chamado Família, acrescenta dizendo que:

“No ambiente doméstico, as almas se reencontram sob variados motivos (resgate, apoio, afeições, desafetos, missão, etc) com a finalidade de estreitar os laços que as unem, pois neste ambiente de convivência contínua, interdependência, na condição de pais, filhos, irmãos aprendem a conjugar o verbo ‘amar’.

Tendo em vista a condição moral de nosso planeta, a maioria das almas que se reúnem no mesmo círculo familiar são companheiros necessitados de se reajustarem no clima da fraternidade, gerando dificuldades no convívio e desaguando na imensidão das lutas que retomamos, na experiência com nossos familiares, velhos companheiros do passado.”

 

Afinal de contas, é como diz a música: “famílias vêm de muitos planos, muitas vidas enlaçadas, muitos nós que nós mesmos damos”.

Não sabemos a profundidade das histórias que se cruzam sob um mesmo teto e, por isso, seria impossível, neste pequeno texto, decifrar as causas de tantos conflitos que afastam pessoas que, quase sempre, estão a poucos passos de distância umas das outras, separadas apenas por paredes, portas ou pela largura de uma mesa de jantar.

Todavia, enxergar a amplitude da vida espiritual que antecede à corporal é importante para compreendermos que, naquele grupo de pessoas reunidas pelos laços da família, encontram-se Espíritos reencarnados com histórias e históricos milenares, todos imperfeitos e aprendizes da vida, que possuem nas mãos diversas ferramentas para fazer diferente.

O passado muito nos ensina.

O presente é oportunidade.

De nada adianta compreendermos a transcendência da vida, as sucessivas encarnações, se não atentarmos para a experiência de agora e o que ela nos oportuniza: a construção de laços preenchidos de mais amorosidade e respeito.

Mas vamos falar mais sobre o tema, focando, agora, os conflitos mais comuns relacionados ao pertencimento nas famílias atuais e na bendita chance da reconciliação.

 

Reconciliação.

A história das reencarnações de cada um dos integrantes de um grupo familiar ainda nos é inacessível pela bênção do esquecimento.

Mas o hoje, acessível a todos nós, é chance de reconstruir.

Numa atividade realizada no Encontro de Mocidades Espíritas do Estado do Espírito Santo – EMEES, do ano de 2016, foi proposto aos jovens participantes do estudo “Pertencimento Familiar” que apontassem, dentre algumas frases, aquelas que representassem os maiores conflitos relacionados ao tema dentro de seus próprios núcleos. As cinco afirmativas mais escolhidas foram as seguintes:

– Eu quero muito dizer algo para a minha família, mas não me sinto à vontade.

– Lá em casa nós não conversamos, mas tem tanta coisa para ser dita.

– Eu gostaria que nós olhássemos mais uns para os outros…

– Eu sinto que não sou aquilo que meus pais sonharam para mim.

– Eu não vejo a hora de sair de casa.

Percebeu-se, naquele estudo, como a ausência do diálogo é fonte de distanciamento entre pessoas de uma mesma família, enfraquecendo o sentimento de pertencimento e inclusão, fazendo com que muitos criassem uma enorme ansiedade pela independência financeira para que pudessem, enfim, sair de casa.

Dizemos a ausência do diálogo verdadeiro, porque muitas vezes há apenas tirania com aparência de diálogo e isso não ajuda.

O pertencimento não é apenas saber que pertence a uma família pelo sobrenome ou pelos códigos genéticos, é se sentir como parte daquele grupo.

Outra situação que se revelou como sendo causa do enfraquecimento do pertencimento é a frustração das expectativas. Pais que se sentem frustrados pelos filhos não serem o que eles sonharam, principalmente quanto à escolha da profissão; filhos que se sentem frustrados por não atender aos sonhos dos pais, seja por quererem outros caminhos, seja pela angústia de se sentirem responsáveis pela felicidade deles.

A conclusão a que se chegou naquele estudo foi a de que a reconciliação diante da crise deve passar, necessariamente, pela construção de pontes.

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As bases dessa ponte se dão pelo diálogo, que permite o entendimento entre as pessoas. Deve-se ouvir com atenção e falar com respeito, objetivando, sempre, a melhora da realidade que se vive. A conversa não deve servir para a busca de vítimas ou algozes, até porque todos nós, com as nossas imperfeições, devemos enxergar no outro alguém com as mesmas dificuldades que possuímos e que erram mais pela ignorância que por maldade.

As luzes da ponte se acendem pela tolerância, a partir do momento em que se aprende a respeitar o tempo do outro, o momento do outro e a posição de cada um no círculo familiar, o que garante a harmonia dentro da família. Filhos que entendem a posição dos pais e pais que entendem a nobre missão de educarem os filhos.

Sobre a ponte, movimenta-se o sentimento de gratidão. Sim! A partir do exercício da gratidão, conseguiremos ver no outro a beleza do encontro, sem qualquer necessidade de receber algo em troca. Sou grato ao outro apenas por ele estar partilhando comigo desta existência, pois sei que necessitamos, juntos, crescer e evoluir.

É lembrar que “família é acolher e não sentenciar”, pois cada um com as suas dificuldades e limitações é capaz de formar um todo necessário ao seu desenvolvimento e aprendizado.

 

 

Todos temos a oportunidade de ser, em nossas próprias famílias, agentes transformadores da realidade muitas vezes triste que nos cerca. Segundo Neio Lucio, no Livro Jesus no Lar, de psicografia de Chico Xaviar, o Mestre ensina que o lar, na maioria das vezes, é o cadinho santo ou o forno reparador, sendo que as lutas são as aulas que recebemos, ensinando-nos o caminho da construção de um mundo melhor.

 

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