Estúpidos preconceitos da cor

PRIVILÉGIO. O que é privilégio? Qual será a importância de se refletir sobre esse assunto? De acordo com o dicionário, privilégio é o direito, a vantagem, a prerrogativa, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo em detrimento dos demais[1]. Ou seja, se estivéssemos em uma corrida, alguém com privilégios sairia na frente dos outros, que teriam que fazer um esforço extra apenas para alcançá-lo e só então começarem a competir igualmente pelo mesmo prêmio. Isso não parece muito justo, não é? Agora imagine essa situação em nossa sociedade, por exemplo, numa entrevista de emprego, ou numa blitz policial, ou simplesmente para conhecer os pais da pessoa que você ama. Que diferenças esses “privilégios” fariam? Caso você esteja com dificuldade de imaginar, assista ao vídeo abaixo e junte-se a nós nessa reflexão.

 


Caminhada dos Privilégios[2]. As 35 perguntas estão disponíveis em português na descrição do vídeo no YouTube.

 

Pois é, simples características pessoais como a cor da pele, as crenças, as necessidades específicas, os órgãos genitais, a pessoa que amamos e a pessoa que nós nos enxergamos ser, infelizmente, fazem diferença em nossa sociedade. Portanto, perante a diversidade humana existente na Terra, nas competições da vida, uns privilegiados acabam saindo na frente, enquanto outros largam bem atrás, puramente por causa de ignorância e preconceito.

 

Pelo visto, temos muito assunto para conversar sobre Diversidade. Então, para dar o pontapé inicial nessas discussões, o post de hoje será dedicado à Diversidade Étnico-Racial. Será que a cor da nossa pele influencia mesmo o tom do nosso diálogo? Para esclarecer essa dúvida, vamos assistir ao vídeo abaixo, que é uma adaptação da Caminhada dos Privilégios, feita pelo Instituto Identidade do Brasil[3], para análise da influência exclusivamente étnico-racial nos privilégios sociais.

 

 

Você tem problemas em fazer amigos na escola ou arranjar emprego por causa da sua raça? As pessoas olham para você ou o(a) tratam diferente por causa da sua cor? Já ouviu piadas por conta da cor da pele ou do tipo de cabelo? E por causa do seu sotaque ou local onde nasceu? Algumas pessoas nunca sequer pensaram nessas perguntas, enquanto que outras vivem perseguidas por elas. Por que isso acontece? Para entender melhor, precisamos fazer uma viagem no tempo.

 

Uma história de estúpidos preconceitos da cor

De acordo com Humberto de Campos[4], o plano de Jesus para o Brasil era de que o país se desenvolvesse fraternalmente, graças à ação solidária de três raças tristes: os bondosos e fraternais habitantes destas terras (índios), a nação mais humilde da Europa (portugueses) e espíritos humildes e mansos reencarnados nas regiões africanas (negros). Porém basta ler qualquer livro de história, que facilmente constataremos que o desenvolvimento do Brasil não saiu exatamente como planejado pela espiritualidade superior. Afinal, nós temos muitos vícios morais, como o orgulho e o egoísmo, para nos cegarem e nos afastarem do caminho do bem na hora de utilizarmos o nosso livre-arbítrio, não é mesmo?

 

Isso gerou graves consequências para os nossos antepassados, pois o atrito das raças deu ensejo aos quadros mais dolorosos e mais lamentáveis. Os negros foram escravizados como se fossem animais selvagens, sem coração e sem consciência[5], durante amargos 388 anos que mancharam mais de 2/3 da história brasileira. Os naturais foram expulsos de suas terras e buscaram as florestas remotas, para fugir da escravidão e de torturas injustificáveis que lhes infligiam os homens brancos, acolhidos por eles, um dia, com mais altas manifestações de fraternidade[6].

 

Ao invés de as três raças agirem solidariamente, os portugueses se atribuíram uma condição de superioridade e, por isso, os índios e os negros sofreram toda sorte de humilhações e vexames[7], criando profundas raízes de racismo na cultura do país que se desenvolvia.

 

Porém o racismo não teve a sua origem no Brasil. Afinal, não foi por acaso que os portugueses se achavam superiores aos negros e índios. Se formos para o hemisfério norte e atravessarmos o Oceano Atlântico, poderemos constatar que o racismo já estava enraizado na cultura europeia, muito antes de os portugueses chegarem aqui.

 

Por séculos, acreditava-se numa “superioridade de raças”, considerando-se o continente europeu como o verdadeiro “berço da civilização”. Ademais, por longo período, os grandes centros educacionais (academias e universidades) concentraram-se na Europa, o que, por via de regra, redundava numa falsa ideia de superioridade intelectual, moral e cívica do homem branco europeu. Nesse contexto, o egocentrismo europeu e sua ideia de civilização evoluída, com uma ideia de perfeição, fez o povo do “velho continente” acreditar que era superior aos demais,[8] levando-o, inclusive, a negar o caráter humano do escravizado, dizendo que o negro não tinha alma[9], e também à falsa ideia de se denominar “descobridor” de terras já habitadas por povos que considerava inferiores. Esse pensamento ocasionou terríveis atrocidades ao longo da história humana e chegou a moldar a ciência.

 

O cenário científico europeu do século XIX

Ao chegarem à África do Sul, em meados do século XVII, os holandeses se deparam com o povo khoisan, que engloba dois grupos étnicos: os pastores khoikhoi e os caçadores san. Os primeiros foram chamados pelos colonos de hotentotes – que significa “gagos” na língua holandesa, provavelmente devido ao seu idioma peculiar, mas foi a estrutura física de algumas mulheres khoisan que levou à história da famosa Vênus Hotentote[10].

 

Sarah “Saartjie” Baartman (1789 – 1815) foi a mais famosa de ao menos duas mulheres negras do povo khoisan que foram exibidas como aberrações em feiras na Europa do século XIX sob o nome de “Vênus Hotentote”. Saartjie tinha esteatopigia (grande desenvolvimento posterior das nádegas) e sinus pudoris (longos lábios da genitália) assim como algumas Khoisan, portanto as suas dimensões corporais eram consideradas “inusitadas” pela perspectiva europeia, o que levou à opinião generalizada de que estas eram típicas entre os hotentotes. No final de 1814, Saartjie foi vendida a um francês, domador de animais, que viu nela uma oportunidade de enriquecimento fácil. Foi exposta em Paris a multidões que zombavam dela, tendo de aceitar exibir-se completamente nua. Era alvo de caricaturas, mas chamou também o interesse de cientistas.[11]

 

Anatomistas e outros naturalistas visitaram-na, tendo sido objeto de numerosas ilustrações científicas. Seu corpo foi totalmente investigado e medido, com registo do tamanho das nádegas, do clitóris, dos lábios e dos mamilos para museus e institutos zoológicos e científicos. Baartman foi usada para definir uma fronteira entre a mulher africana e a mulher branca. O fato de que ela tinha nádegas protuberantes e longos lábios da genitália a fez ser considerada como uma mulher “selvagem”.11

Sarah “Saartjie” Baartman serviu para estudos estúpidos

Sarah “Saartjie” Baartman por diferentes visões. À esquerda uma pintura de como ela realmente era e à direita uma caricatura dela do início do século XIX.

Após sua morte, o corpo de Baartman foi enviado para o Museu Nacional de História Natural em Paris, para exames. Entre 1814 e 1870, a dissecção de Baartman ajudou a moldar a ciência europeia. Os cientistas do século XIX eram fascinados por Baartman, que, juntamente com várias outras mulheres africanas que foram dissecadas, eram referidas como “hotentotes”.11

 

Todos esses fatos deram ainda mais força à Frenologia, teoria altamente influente na época, que interpretava os diferentes comportamentos, habilidades e até faculdades morais e intelectuais do homem como características inatas e dependentes da organização do cérebro. De acordo com a Frenologia, considerava-se, biologicamente, menos capaz o organismo do negro em relação ao do branco[12] (Maiores informações em Revista Espírita-julho de 1860: A Frenologia e a Fisiognomonia). Entretanto, justamente em meio a esse cenário, um pedagogo francês e amante da ciência deu um passo muito importante em direção ao fim do racismo.

 

O Dr. Rivail e a mensagem dos Espíritos

Em meados do século XIX, o Espírito de Verdade e sua falange de Espíritos do Senhor trouxeram ao mundo, por meio do Espiritismo, uma mensagem nítida de que, independente da cor da pele ou de outras características físicas, todos nós somos da mesma espécie e fazemos parte da mesma família[13], pois todos os homens são irmãos em Deus[14], que, por sua vez, a nenhum homem concedeu superioridade natural, nem pelo nascimento, nem pela morte, sendo todos iguais aos seus olhos.[15] Ainda desfere um golpe mortal à Escravidão, ao afirmar, inclusive, que o escravo e o escravizador são iguais perante o Pai[16] e que é contrária à Lei Divina toda sujeição absoluta de um homem a outro homem, sendo a escravidão um abuso da força que desaparecerá com o progresso, como gradativamente desaparecerão todos os abusos.[17]

 

Portanto, perante uma doutrina que tem por base fundamental a mútua assistência entre os homens por intermédio da caridade cristã, é de se estranhar que a Federação Espírita Brasileira (FEB) tenha sido processada pela suposta existência de manifestações racistas e preconceituosas nas obras basilares da doutrina espírita, todas de autoria do professor Hippolyte Leon Denizard Rivail, conhecido pelo pseudônimo Allan Kardec, o Codificador do Espiritismo. Baseados neste processo de nº 1.14.000.000835/2006-12, buscamos as obras citadas e encontramos as passagens listadas abaixo:

  • Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – Parte 2ª – Cap. V – q. 222 (trechos referentes à 6ª interrogação dentro desta questão)
  • Allan Kardec – O que é o Espiritismo – Cap. III – q. 143
  • Allan Kardec – Revista Espírita de Abril de 1862: Frenologia Espiritualista e Espírita – Perfectibilidade da Raça Negra
  • Allan Kardec – A Gênese – Cap. XI – Item 32
  • Allan Kardec – Obras póstumas – Cap. Teoria da Beleza

 

Ao se ler essas passagens, observa-se que são reflexões e anotações de Kardec sobre a lei do progresso espiritual pela reencarnação. O codificador analisava a ideia de que os espíritos encarnam em meios simpáticos a seu grau de evolução e, progredindo sucessivamente, terão de vir a reencarnar num povo mais adiantado, seja este qual for, neste ou noutro planeta mais avançado espiritualmente.

 

Hippolyte era um homem da ciência, renomado pedagogo francês e discípulo de Pestalozzi. Desde o começo da Codificação Espírita, utilizou a metodologia científica para ordenar e distribuir metodicamente as matérias, assim como fazer as notas e formatar algumas partes da redação[18]. Nessa senda, cumpre esclarecer que, em vista do panorama verificado na Europa, em que se acreditava serem as civilizações africanas tribais e primitivas, isto fruto da ignorância e do preconceito de inúmeros pensadores, o codificador da Doutrina Espírita, no intuito de explicar que os espíritos apresentam certa hierarquia devido ao grau de evolução, resultante da pluralidade de experiências vividas, utilizou-se do exemplo do hotentote, baseado nos princípios da Frenologia.

 

Novos tempos, novos conhecimentos

Allan Kardec mesmo estabeleceu como fundamento do Espiritismo: “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.”[19]

 

A Frenologia, apesar de influente, não conseguiu ser comprovada por bases experimentais, caiu em descrédito e foi abandonada pela ciência no final do século XIX. Por outro lado, no início do século XXI, o Projeto Genoma Humano anunciou que fora concluído com sucesso o sequenciamento e a identificação de todo o conjunto de genes humanos, comprovando, de uma vez por todas, que não existem diferenças significantes entre as denominadas “raças” humanas e, para entrar no clima dessa nova era, convidamos vocês a assistir ao seguinte vídeo:

 

 

Na verdade, os trabalhos científicos que abordaram as diferenças entre povos mostraram que, apesar das diferenças na cor dos olhos, da pele, cabelos e etc., as diferenças genéticas existentes entre grupos de características físicas semelhantes eram praticamente as mesmas, quando comparadas com as diferenças genéticas entre grupos de características físicas diferentes, sendo possível encontrar mais diferença entre dois brancos do que entre um branco e um negro, portanto, em termos biológicos, não existem “raças” com contorno definido, apenas um grande número de variações físicas entre os seres humanos.[20]

 

Eis então que surge o termo “Etnia”, pois, enquanto o conceito de raça está ligado à ideia errônea de traços biológicos definitivos, o conceito de etnicidade é puramente social. Ao tratarmos de etnicidade, estamos fazendo referência a construções culturais de determinada comunidade de pessoas. Os membros dos grupos étnicos enxergam-se como culturalmente diferentes de outros grupos sociais e vice-versa. Características como religião, língua, história e símbolos, por exemplo, são pontos de diferenciação entre etnias.20

 

A Frenologia estava equivocada, quando considerou o corpo do negro inferior ao corpo do branco europeu e, levando em conta que, se os princípios utilizados em uma análise estão errados, as conclusões alcançadas passam a ser inválidas, podemos considerar superadas as referências feitas por Kardec quanto a essa ideia.

 

Devemos ser gratos ao Codificador, por todo o esforço empenhado para trazer o Espiritismo ao mundo, doutrina esta que, desde o início, igualou espiritualmente todos os seres humanos perante Deus e cuja base está aberta a assimilar os novos conhecimentos que chegam pelo progresso intelectual.

 

Para finalizar este post, compartilhamos um pequeno trecho do discurso de Allan Kardec, num banquete, em outubro de 1861, na cidade de Lyon: “Possam nossos irmãos futuros se lembrarem deste dia memorável em que os espíritas lioneses, dando o exemplo de união e de concórdia, colocaram, nestes novos banquetes, o primeiro passo da aliança que deve existir entre os espíritas de todos os países do mundo. O Espiritismo, restituindo ao espírito o seu verdadeiro papel na criação, constatando a superioridade da inteligência sobre a matéria, apaga naturalmente todas as distinções estabelecidas entre os homens, segundo as vantagens corpóreas e mundanas, sobre as quais só o orgulho fundou as castas e os estúpidos preconceitos da cor.[21]

 

Sugestões de projetos sobre Diversidade Étnico-Racial

  • Vamos Abrir o Nosso Mundo – A Jornada do DNA

Vídeos relacionados: legendas em português disponíveis

Geral: https://www.youtube.com/watch?v=tyaEQEmt5ls

Ellaha (Curdistão – Irã): https://www.youtube.com/watch?v=7mqWYuKvbXY

Carlos (Cuba): https://www.youtube.com/watch?v=EYnutf0rqeY

Aurelie (França): https://www.youtube.com/watch?v=mer2HG9dSdU

Jay (Grã-Bretanha): https://www.youtube.com/watch?v=g5o9DmUYCJA

Yanina (Rússia): https://www.youtube.com/watch?v=tk3F37A–aA

Karen (Burundi – África Oriental): https://www.youtube.com/watch?v=2SB6ZaqEaLQ

 

  • As Origens da Beleza

Site: http://www.lesoriginesdelabeaute.com/fr/accueil.html

YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCSi9LpPZR7CUZMJknep7-QQ

 

  • O Atlas da Beleza

Site: http://theatlasofbeauty.com/

Reportagem: https://www.mensagenscomamor.com/mulheres-pelo-mundo

 

  • Eu Sou Uma Obra de Arte: Etnias do Mundo

Entrevista: https://www.youtube.com/watch?v=QIXW1ZpofBk

Ensaio: https://www.youtube.com/watch?v=JwtdlcCuZEI

 

 

Referências:

[1] https://www.significados.com.br/privilegio/

[2] https://www.youtube.com/watch?v=OCVCCjk-BDM

[3] http://simaigualdaderacial.com.br/

[4] Humberto de Campos (psicografia de Francisco Cândido Xavier) – Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho – Cap. 1

[5] Humberto de Campos (psicografia de Francisco Cândido Xavier) – Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho – Cap. 5

[6] Humberto de Campos (psicografia de Francisco Cândido Xavier) – Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho – Cap. 6

[7] Humberto de Campos (psicografia de Francisco Cândido Xavier) – Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho – Cap. 7

[8] Arquivamento da FEB

[9] http://www.apologiaespirita.org/apologia/artigos/025_O_polemico_texto_de_Kardec_sobre_a_raca_negra.pdf

[10] https://pt.wikipedia.org/wiki/Khoisan

[11] https://pt.wikipedia.org/wiki/Saartjie_Baartman

[12] http://www.apologiaespirita.org/apologia/artigos/025_O_polemico_texto_de_Kardec_sobre_a_raca_negra.pdf

[13] Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – Parte 1ª – Cap. III – questão 53a

[14] Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – Parte 1ª – Cap. III – questão 54

[15] Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – Parte 3ª – Cap. IX – questão 803

[16] Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – Parte 3ª – Cap. X – questão 830

[17] Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – Parte 3ª – Cap. X – questão 829

[18] Allan Kardec – O Livro dos Espíritos – Prolegômenos

[19] Allan Kardec – A Gênese – Capítulo I – Item 55

[20] RODRIGUES, Lucas de Oliveira. “Raça e etnia”; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/sociologia/raca-etnia.htm>. Acesso em 17 de fevereiro de 2017.

[21] Allan Kardec – Revista Espírita de Outubro de 1861 – Discurso do Sr. Allan Kardec no banquete de Lyon

Crédito da Pintura: https://www.findagrave.com/cgi-bin/fg.cgi?page=gr&GRid=123319600

Crédito da Caricatura: https://en.wikipedia.org/wiki/Sarah_Baartman



2 respostas para “Estúpidos preconceitos da cor”

  1. Juliana disse:

    Simplesmente amei esse post!!! Os videos são sensacionais e a reflexão profunda. Parabéns!

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