Espelho, espelho meu, a rainha branca merece meu perdão?

Em Alice Através do Espelho, filme adaptado da obra de Lewis Carroll, Alice (Mia Wasikoska) retorna após uma longa viagem pelo mundo e reencontra a mãe. No casarão, em uma grande festa, ela percebe a presença de um espelho mágico. A jovem atravessa o objeto e retorna ao fantástico País das Maravilhas, onde descobre que o Chapeleiro Maluco (Johnny Depp) corre risco de morte após fazer uma descoberta sobre seu passado. Para salvar o amigo, Alice deve conversar com o Tempo (Sacha Baron Cohen), para voltar às vésperas de um evento traumático e mudar o destino do Chapeleiro. Importante ressaltar que, nessa aventura, Alice descobre o trauma que separou as irmãs Rainha Branca (Anne Hathgaway) e Rainha Vermelha (Helena Bonham Carter).

Nesse filme, dirigido por Tim Burton e escrito por Linda Woolverton, um drama familiar merece destaque e é fundamental para a solução da problemática que envolve toda a história. Um problema absurdo coloca as irmãs em lados opostos. Uma questão de justiça, provocada por uma “torta” espalha ódio e destruição que só mesmo o tempo e a aproximação para resolver.

 

Os absurdos do filme são os absurdos que acontecem em nosso dia-a-dia e nos afasta de quem mais amamos. As pequenas coisas e as mais simples ações provocam problemas os mais diversos possíveis, que, muitas vezes, se não resolvemos por meio do diálogo, levamos encarnações para dar conta. Para que um problema familiar não tome proporções incalculáveis, devemos usar a misericórdia com nosso irmão.

 

Allan Kardec[1] (2013, p. 117) afirma que:

 

A misericórdia é o complemento da brandura, porquanto aquele que não for misericordioso não poderá
ser brando e pacífico. Ela consiste no esquecimento e no perdão das ofensas. O ódio e o rancor denotam alma sem elevação nem grandeza. O esquecimento das ofensas é próprio da alma elevada que paira acima dos golpes que lhe possam desferir.

 

Se usarmos de imediato a misericórdia, não precisaremos esquecer nem perdoar. Caso contrário, o perdão da ofensa será passo importante, no entanto esta é tarefa difícil e complexa.

 

Vale ressaltar que a complexidade nas relações não é diferente se estamos em família, ao contrário, muitas das vezes, esse fato é um complicador. Nesse sentido, voltamos ao filme e então percebemos que uma torta causou tanta confusão, desarmonia e dor.

 

Diante de tudo isso, uma questão surge: como saber se perdoamos e se estamos no caminho certo? Kardec (20
13, p. 170) orienta:

 

O perdão verdadeiro, o perdão cristão é aquele que lança um véu sobre o passado; esse o único que se satisfaz com as aparências. Ele sonda o recesso do coração e os mais secretos pensamentos. Ninguém se lhe impõe por meio de vãs palavras e de simulacros. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é peculiar às grandes almas; o rancor é sempre sinal de baixeza e de inferioridade. Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais pelos atos do que pelas palavras.

Kardec é claro em sua fala ao afirmar que o perdão verdadeiro é próprio das almas elevadas. Mesmo que tenhamos dificuldades, alcançaremos essa condição, se exercitarmos essa possibilidade. Ainda Kardec (2013, p. 175) nos conclama: “Perdoai aos vossos irmãos, como precisais que se vos perdoe”.

 

As Rainhas Branca e Vermelha teriam minimizado o problema, se o diálogo tivesse acontecido logo que a dificuldade surgiu. Claro que “os laços de sangue não criam forçosamente os liames entre os Espíritos” (KARDEC, 2013, p. 201). Assim considerando, devemos estar sempre atentos às nossas relações familiares, pois nossas diferenças estão explícitas dentro do nosso lar, afinal “não são os da consanguinidade os verdadeiros laços de família” (KARDEC, 2013, p. 201). Kardec ainda esclarece que:

 

Segue-se que dois seres nascidos de pais diferentes podem ser mais irmãos pelo Espírito, do que se o fossem pelo sangue. Podem então atrair-se, buscar-se, sentir prazer quando juntos, ao passo que dois irmãos consanguíneos podem repelir-se, conforme se observa todos os dias […] (2013, p. 201).

Estar atento às relações familiares faz-se necessário, pois os laços de sangue, muitas vezes, colocam-nos frente a frente com nossos inimigos de outrora. Dessa forma, para que possamos caminhar de fato, perdoar é um exercício constante, pois é uma necessidade entre os seres que, no passado, digladiavam constantemente. Perdoar é o primeiro passo, para que a família cumpra seu papel na Terra.

Amar a quem nos ama é fácil – nosso pai, nossa mãe. Amar aqueles que nos agrediam no passado é tarefa difícil – rainhas brancas ou vermelhas –, mas um primeiro passo nessa direção é necessário: perdoar.

 

Dica:

Alguns filmes sobre família você pode encontrar no link

http://www.obstrelando.com/2016/03/filmes-de-drama-familiar.html

 

 

[1] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo: com explicações das máximas morais do Cristo em concordância com o espiritismo e suas aplicações às diversas circunstâncias da vida. Tradução Guillon Ribeiro. 131. ed. Brasília: FEB, 2013.



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