Concilia-te com o teu adversário

Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás com ele no caminho.
Mateus 5:25

Nessa máxima, o Cristo nos convida à conciliação com o adversário – adversário no sentido daquele que nos parece adverso. Certo de que a criatura humana naturalmente apresenta diferenças, o Mestre Jesus recomenda que situações de conflito nascidas das diferenças sejam superadas, para que se alcance a fraternidade e o resplendor espiritual. Nessa mesma passagem, Ele fala, de forma alegórica, sobre a Lei da Reencarnação:

 

“Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda, e sejas lançado na prisão.”

 

A prisão dita pelo Cristo pode ser entendida como uma nova encarnação, isto é, o espírito novamente preso em um corpo físico para renovar vínculos e se reconciliar com os seus desiguais.

 

Sobre a Reencarnação, em O Livro dos Espíritos, podemos observar:

167. Qual o fim objetivado com a reencarnação?

“Expiação, melhoramento progressivo da Humanidade. Sem isto, onde a justiça?”

 

Reencarnamos, pois, para aprender a viver em sociedade, uma das leis morais descritas na terceira parte de O Livro dos Espíritos.

“Homem nenhum possui faculdades completas. Mediante a união social é que elas umas às outras se completam, para lhe assegurarem o bem-estar e o progresso. Por isso é que, precisando uns dos outros, os homens foram feitos para viver em sociedade e não insulados.” – Allan Kardec.

 

Para vivermos em sociedade, naturalmente, precisamos aprender a conviver com as diferenças, principalmente com as diferenças de opiniões. Então fica o questionamento: Como eu reajo diante da manifestação de uma opinião diferente da minha? É com agressividade? Ou consigo escutar o ponto de vista alheio sem perder a compostura?

 

 

Uma das formas de evitarmos situações como essa é buscar o autoconhecimento. É conhecendo as nossas próprias questões íntimas que podemos alcançar um maior autocontrole diante de debates e contendas, uma vez que só exteriorizamos conflitos que existem dentro de nós mesmos.

 

Uma ótima ferramenta de reflexão para o autoconhecimento é a Janela de Johari.

 

 

O objetivo da Janela de Johari é ajudar a nos conhecermos, percebendo em nós a existência de virtudes e defeitos, reconhecendo-nos um ser espiritual em evolução, e a buscar formas de ampliar nossa ÁREA ABERTA, trabalhando com a escuta sem julgamento.

 

Área oculta ou secreta: É a área em nosso ser que procuramos esconder das outras pessoas. Coisas como defeitos, hábitos e segredos que desejamos que ninguém mais saiba que existe além de nós mesmos;

 

Área Aberta: É a área que reconhecemos em nós mesmos e permitimos que seja aberta para que os outros também reconheçam. Geralmente trata-se da parte em nós de que mais gostamos e da qual nos orgulhamos;

 

Área desconhecida: É a parte mais íntima do nosso ser interior. Nela há todas as nossas características que nem mesmo nós somos capazes de identificar;

 

Área cega: É a área que nós mesmos temos imensa dificuldade para identificar, contém os defeitos e as características que ainda não admitimos possuir. Mas que pode ser perceptível pelos que nos cercam.

 

É perfeitamente possível trabalhar em conjunto nossos conflitos internos com os diversos embates sociais e ideológicos que nos cercam em nosso dia a dia. E, para isso, podemos recorrer a algumas técnicas descritas abaixo e ensinadas pelo Ernesto Artur Berg:

 

1 – Competição

É uma atitude assertiva e não cooperativa, em que prevalece o uso do poder. Ao competir, o indivíduo procura atingir os seus próprios interesses em detrimento dos interesses da outra pessoa. É um estilo agressivo e antagônico   em que o indivíduo faz uso do poder para vencer. A competição pode significar “proteger seus direitos”, defender uma posição na qual acredita, ou simplesmente querer ganhar.

 

2 – Acomodação

É uma atitude não assertiva, cooperativa e autossacrificante, o oposto de competir. Ao acomodar, a pessoa renuncia aos seus próprios interesses para satisfazer os interesses da outra parte. A acomodação é identificada por um comportamento generoso, altruísta, dócil à vontade da outra pessoa ou, então, abrindo mão de seu ponto de vista a favor do outro.

 

3 – Afastamento

É uma atitude não assertiva e não cooperativa. Ao afastar-se, a pessoa não se empenha em satisfazer os seus interesses, nem tampouco coopera com a outra pessoa. O indivíduo se coloca diplomaticamente à margem do conflito, às vezes, adiando o assunto para um momento mais adequado, ou então simplesmente recuando diante de uma situação de ameaça (física, emocional ou intelectual).

 

4 – Acordo

É uma posição intermediária entre assertividade e cooperação. O indivíduo procura soluções mutuamente aceitáveis, que satisfaçam parcialmente os dois lados. Ele abre mão de alguma coisa, desde que em contrapartida receba algo em troca que seja de seu interesse. O acordo significa trocar concessões, ou então procurar por uma rápida solução de meio termo. É uma espécie de “toma-lá-dá-cá”.

 

5 – Colaboração

É uma atitude tanto assertiva quanto cooperativa. Ao colaborar, o indivíduo procura trabalhar com a outra pessoa, tendo em vista encontrar uma solução que satisfaça plenamente os interesses das duas partes. Significa aprofundar o assunto para identificar as necessidades e interesses dos dois lados e encontrar uma solução satisfatória para todos os envolvidos. Ao colaborar, o indivíduo procura aprender com os desacordos, olhando o ponto de vista do outro, bem como resolver situações que, de outra forma, poderiam descambar para competição por recursos, ou ainda tentar encontrar soluções criativas para problemas de relacionamento interpessoal.

 

 

Há um fato muito curioso da vida do Papa Francisco que vale muito a pena mencionar, que é muito bem reproduzida no último episódio da Série “Pode me chamar de Francisco”, disponível na Netflix, mais precisamente entre os minutos 9 a 14.20 do respectivo episódio.

 

Ainda antes de se tornar Papa, o Padre Jorge Bergolio foi chamado a intervir em uma situação grave: policiais estavam prestes a cumprir uma ordem judicial e expulsar à força uma coletividade de pessoas carentes que ocupavam uma determinada área. A cena é impressionante, e aquele que se tornaria um dia o Papa Francisco, consegue conciliar aquele conflito iminente.

 

 

Encerramos nossa reflexão, portanto, com um poema do rapper Emicida em sua música intitulada “Yasuke (Bendito, Louvado Seja)”

 

Sempre foi quebra de corrente, sem brincadeira
E a sua luta escondida na dança, é igual capoeira
Resistência “mocada” na trança

Beleza, guerreira!
As pessoas são como as palavras
Só tem sentido se junto das outras
Foi sonho, foi rima, hoje é fato pra palco
Eu e você juntos somos nós
Nós que ninguém desata
A rua é ‘nóiz’!

 



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