Comunicação não violenta e a Espiritualidade

Episódio de hoje: O Martelo de Thor !

O martelo do thor

 

O relógio da escola cravava 13h10!

 

Eu tinha que fazer a mágica de atravessar todo o pátio da escola, entrar no prédio B, subir duas rampas e entrar na sala 7 o mais rápido possível! Enquanto isso, o sol da tarde queimava tudo ao meu redor, além, é claro, da prova de cálculo estequiométrico, sorridente e perversa, desejando me devorar viva. Tinha tudo para ser um dia com reação de ácido sulfúrico!

 

E não deu outra… Cheguei atrasada e pimba! Não pude entrar, levei sermão e assinei ocorrência. Tanto na conversa com a supervisora, quanto com as minhas colegas, ouvi muuuito! Sabe aquelas falas duras, secas e até exageradas (o conto é meu e eu sou a vítima!), muito sem noção? Pois é, tive que ouvir tudo!

 

Para se ter uma ideia da pancada que recebi de Carol e Luiza, as palavras irresponsável e preguiçosa foram as mais gentis, além de desorganizada e sem foco da supervisora “amiga”. Enfim, era o martelo de Thor, afundando em minha cabeça! Tudo péssimo, pesado e violento. E se, por acaso, tudo aquilo era para “o meu bem”, a terapia não funcionou: me senti um lixo!

Como treinar o seu Chacal

Treinando o seu Chacal

Cara, fico me perguntando: – por que as pessoas são assim? Para falar a verdade (sem ser vítima agora), vale também indagar: – por que eu também sou assim muitas vezes? É incrível o grau de agressividade, maldade, fofoca, ironia, aspereza e dureza – de violência – na fala das pessoas, na nossa fala!

 

É muito constrangedor ver como amigos e amigas minhas se comunicam entre si, especialmente quando se encontram fisicamente ou virtualmente, para debaterem temas delicados como eleições presidenciais, políticas públicas no Brasil ou, pior ainda, questões controversas como sexualidade, etnia ou aborto. É tiro e bomba!

 

Parece que desenvolvemos a incrível capacidade de nos desconectarmos de nós mesmos e de machucar qualquer pessoa que se oponha à forma pela qual vemos o mundo. Feras treinadas para devorar as suas vítimas, tão logo elas discordem de suas “verdades”. Seres – entenda-se, aqui, todos nós – que se esqueceram da importante relação entre se conectar e se comunicar.

 

Nesse sentido, o Espírita e a Comunicação Não Violenta (CNV) se posiciona contra tudo isso!

 

– Como? – Cumprindo sua missão na Terra. Qual seria a nossa missão na Terra? Está lá na questão 573 de “O Livro dos Espíritos”: Em que consiste a missão dos Espíritos encarnados? Resposta: Instruir os seres humanos, ajudá-los a avançar, melhorar as suas instituições por meios diretos e materiais.

 

Um excelente começo é usar a CNV em todos os lugares em que vivemos. Há uma legião de espíritas que já atua e se comunica desta forma. A CNV pode ser expandida para o nosso convívio em conselhos municipais, estaduais, federais; hospitais, asilos, abrigos; campanhas, eventos, bazares; em diversas instituições de emancipação social, artística, científica, política, religiosa, médica, jurídica entre tantas outras. É um excelente instrumento de encontro com o outro e de encontro consigo mesmo.

 

Falando como uma girafa…

Comunicação não Violenta

Mas, como nem tudo são trevas, uma coisa boa foi que, naquela mesma semana – ainda nem tinha me recuperado das marteladas –, eu estava na biblioteca da escola (curto muito ler!) e topei com um livro de capa laranja com o título “Comunicação Não Violenta”, escrito por um psicólogo chamado Marshall Rosenberg. (Dá um zoom na capa do livro aí, editor!)

 

Pensei comigo mesma: Caraca! Era o que procurava, respostas! Neste livro, o escritor dá o exemplo de dois tipos de falas: a linguagem-Chacal e a linguagem-girafa. A primeira, agressiva, indiferente e chantagista; a segunda, compassiva, assertiva e sincera. Imediatamente me lembrei de um monte de gente que conversa com a gente usando essas duas linguagens. Principalmente as que se comunicaram comigo durante o lance do atraso na escola.

 

Porém o coração do livro fala mesmo é dos quatro componentes da Comunicação não Violenta (CNV) que precisamos muito conhecer: a) Observação, b) Sentimento, c) Necessidades e d) Pedido. Fala em ser como a girafa, que possui um dos maiores corações do reino animal, ou seja, falar com um coração grandioso, cheio de vontade de ajudar as pessoas.

 

Pensando em ajudar pessoas, lembramos o Espírito Humberto de Campos, na obra Boa Nova, quando da convocação que o Mestre faz aos “500 da Galileia”, atribuindo-lhes a tarefa de reencarnarem através dos milênios, disseminando a prática do Seu Evangelho com o exemplo da dor e da superação. Vida após vida, lá estariam – “sal da terra” −, vivenciando o extremado amor à Causa do Cristo.  A Comunicação Não Violenta, que fala ao indivíduo e às massas, pode ser usada para sentir e dar curso ao sopro renovador da esperança de dias melhores.

 

a) Observar sem julgar:

Já tentou? Experimenta! Nesse componente, nós somos convidados a diferenciar observação de avaliação. Não é o caso de nunca fazer qualquer avaliação. O problema é confundir um com outro. Não perceber que, muitas vezes, ao relatar o que observamos, estamos, de fato, relatando nossos juízos. Em vez de relatar o que vemos, fazemos uma avaliação pessoal do que vemos.

 

Exemplo: após ver a sua colega tirar nota baixa em três avaliações, você a chama de “burra”. Isso é uma linguagem-chacal! Típica mistura de observação com julgamento embutido. Pensa bem: uma coisa são as três notas que você observou no boletim dela, outra coisa é o que você acha dela por causa das três notas que você observou. Percebeu o tipo de comunicação?

Não julgueis para que não sejais julgados

Não ajuda em nada, aliás, piora a situação. Além de não acabar com o problemas das notas, acaba com a pessoa. Quer se comunicar como uma girafa? Aprenda a falar sobre coisas específicas comportamentos observáveis, questões concretas que possam ajudar, como objetivos, metas, dados. Pergunte mais para a pessoa se ela está mais perto ou mais longe dos próprios objetivos. Ou, se for o caso, ouça mais, fale menos. O silêncio também comunica…

 

b) Identificar sentimentos:

 

Assim como as pessoas confundem observação com avaliação, também confundem sentimentos com pensamentos. Diferenciar o que sentimos do que pensamos de nós é fundamental. Isso acontece muitas vezes, quando usamos o verbo sentir não expressando sentimento algum. Exemplo é quando, ao perguntar para uma pessoa o que ela está sentindo, ela responde: – sinto que sou uma pessoa horrível. Naturalmente, existe um sério sentimento na fala, que devemos identificar e cuidar, porém isso não é a expressão de um sentimento, mas a expressão do que pensamos sobre nós. Uma violência que cometemos contra nós mesmos.

 

Podemos colaborar nesse processo, quando, em nós mesmos, aprendemos a identificar, diferenciar e expressar o que sentimos do que pensamos sobre nós. Comunicarmo-nos com nós mesmos nestes termos não colabora com nossa evolução. Aprenda a falar com você mesmo. Sentir tristeza é diferente de “sentir-se” “horrível”, “a pior pessoa do mundo”. Tudo isso é linguagem-chacal com nós mesmos.

Girafas se amam

Também é importante distinguir o que sentimos do que achamos e do que as pessoas acham da gente.  Um exemplo: perguntamos para alguém o que está sentindo. Ele responde: – Sinto-me insignificante para as pessoas com quem trabalho. Novamente é importante acolher com carinho e empatia. Mas repare que insignificância não é sentimento. Expressa o que se pensa do que os outros pensam. No fundo, pode-se estar sentindo tristeza, decepção, frustração…

 

Expressar nossos sentimentos com clareza tem a ver com pararmos de nos julgar, culpar e violentar. Tem a ver também com pararmos de nos violentar com a violência dos julgamentos que os outros fazem de nós e que, muitas vezes, nem é o que realmente as pessoas pensam de fato. Aprender a identificar e expressar, sobretudo para si mesmo, sentimentos positivos também é muito legal. Eis alguns sentimentos: alegre, feliz, confiante, otimista, grato, pleno!

 

c) Expressar necessidades:

 

Como o psicólogo Marshall Rosenberg ensina, “julgamentos, críticas, diagnósticos e interpretações dos outros são todas expressões alienadas de nossas necessidades”.  Se alguém diz:  Você nunca me compreende”, esta pessoa está dizendo que a necessidade de ser compreendida não está sendo atendida. Ou se outra pessoa fala: “Você ama o trabalho mais que a mim mesma! ”. É bem capaz de que essa pessoa esteja dizendo que a sua necessidade de um contato mais íntimo não está sendo atendida.

 

Pense sobre isso! As pessoas dizem mil coisas para todos nós e nós também para as pessoas, mas considere a possibilidade de todas elas, todos nós, estarmos buscando atendimento de nossas necessidades mais diversas. Isso não quer dizer que nós devamos atender a todas as necessidades das pessoas ou atendê-las da forma como desejam ser atendidas. O principal aqui é diferenciar pensamentos ou julgamentos de necessidades.

 

 Uma coisa é “o que” e “como” as pessoas dizem violentamente as coisas para nós, outra coisa é o que elas necessitam ou querem de fato. Não é o caso, aqui, de dizermos o que as pessoas necessitam, mas colaborar para que expressem suas necessidades, não seus julgamentos violentos. Ou, se preferir, compreender, a partir da fala violenta das pessoas, as necessidades delas e, assim, trabalhar as necessidades, não especificamente a violência da fala.

 

d) Aprender a Pedir:

 

 

A Comunicação Não Violenta colabora para que as pessoas doem a si mesmas voluntariamente. Nesse sentido, é importante pedir o que se quer e não o que não se quer. Exemplo: A esposa pede para o marido não passar tanto tempo no trabalho. Na outra semana ela é atendida: o marido marca férias com os amigos em outro estado…. Aprenda a pedir o que você quer realmente.

 

Outra forma de aprender a pedir o que se quer é não confundir pedido com exigência.

 

Diz um ensinamento popular que “descobrimos realmente quem somos nós, não quando as pessoas nos dizem sim, mas quando nos dizem não…”. Pois bem, sábio ditado! Você sabe como diferenciar um pedido de uma exigência? Muitas vezes as pessoas podem fazer pedidos que, no fundo, são exigências e exigências que, no fundo, são pedidos. A principal coisa que diferencia um pedido de uma exigência é como lidamos com a pessoa que faz a recusa!

 

Uma pessoa pode chegar para outra e falar: – você poderia, por gentileza, se você quiser, levar essa correspondência para mim até os correios”. A pessoa solicitada responde: – Não, não posso!

 

Se a solicitante disser: – Ok, vou pedir a alguém que possa… Era um pedido verdadeiro. O solicitante pode até dialogar com ela para reconsiderar a sua resposta. Mas jamais culpabilizar ou agredir com ações ou frases que mostrem sua contrariedade por não ter sido atendido.

 

A comunicação não violenta não se utiliza de coerção, xingamentos, chantagem ou outras violências para obter o que se quer “pedir”. Não há problema em exigir algo, desde que fique claro. Mostrar-se “bonzinho”, para obter algo, e depois cobrar com violência, é violência também.

 

Podemos fazer diferente do que acontece no mundo e de como as pessoas nele se comunicam. Aliás, na questão 932 de o Livro dos Espíritos, temos a pergunta: Por que, neste mundo, os maus exercem geralmente maior influência sobre os bons? Os espíritos superiores respondem: Pela fraqueza dos bons. Os maus são intrigantes e audaciosos; os bons são tímidos. Estes, quando quiserem, assumirão a preponderância. Pois bem, a CNV ajuda-nos a sermos esses bons que comunicam bem o bem.

 

É uma grande exigência! Porém sabemos que muito será exigido daqueles que, “entre os chamados”, se apresentarem para essa elevada tarefa – “muito se pedirá de quem muito recebeu”. A boa nova é que não estamos sozinhos nesse grande processo de espalhar o bem, aliás, nunca estivemos. O maior comunicador da não violência que já passou pela Terra disse sem dúvidas:  “Eis que estarei convosco todos os dias, até o final dos tempos (Jesus – Mt 28, 20).



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