Quantas pedras você já atirou antes de ler este post?

Quem nunca julgou atire a primeira pedra!

 

O nosso olhar é, naturalmente, seletivo. Nós buscamos, a todo instante, qualificar as coisas, as pessoas, uma pedra, as situações… Mas que mal há nisso? Como o julgamento interfere na qualidade das relações entre as pessoas e na cultura de paz que queremos no mundo?

Julgamento

 

Não há problema em analisar os acontecimentos da vida, para deles extrair algum tipo de aprendizado, a fim de refletir, estudar e concluir positivamente para a melhora de si, do próximo ou da coletividade.

 

O julgamento que devemos evitar é aquele que rebaixa a dignidade do outro; aquele que nos coloca numa posição de superioridade em relação ao que é julgado; aquele julgamento que é capaz de punir, envergonhar, considerando aquele que erra incapaz de ser ou de fazer alguma coisa boa.

 

Infelizmente a nossa tendência, no patamar evolutivo em que nos encontramos, é julgar a partir de uma verdade que criamos sobre o outro, substituindo a pessoa pelo erro cometido, colocando-a numa posição de inferioridade em relação a nós. É a velha tendência de querer ser muito caridoso para com os próprios erros, mas muito duro com a condição alheia.

 

A pergunta 903 de O Livro dos Espíritos auxilia muito na compreensão da análise e julgamento destrutivos que devem ser evitados:

 

“903. Incorre em culpa o homem, por estudar os defeitos alheios?

Incorrerá em grande culpa, se o fizer para os criticar e divulgar, porque será faltar com a caridade. Se o fizer, para tirar daí proveito, para evitá-los, tal estudo poderá ser-lhe de alguma utilidade. Importa, porém, não esquecer que a indulgência para com os defeitos de outrem é uma das virtudes contidas na caridade. Antes de censurardes as imperfeições dos outros, vede se de vós não poderão dizer o mesmo. Tratai, pois, de possuir as qualidades opostas aos defeitos que criticais no vosso semelhante (…).”

 

Violência no olhar, violência das relações

 

Quando assumimos essa postura julgadora destrutiva, passamos a enxergar as pessoas a partir de um pressuposto intolerante e precipitado, em função de estereótipos que tomamos como verdades.

 

É como se a gente colocasse óculos de lentes coloridas e passasse a enxergar o mundo apenas da cor da lente.

 

Há dois vídeos muito interessantes que gostaríamos de compartilhar, pois ilustram muito bem essa discussão:

 

Vídeo 1

 

Vídeo 2

 

O primeiro vídeo retrata um olhar preconceituoso em razão de a pessoa ser, aparentemente, de origem árabe, refletindo uma generalização que muitas vezes costumamos fazer. No nosso cotidiano, a experiência do vídeo pode ser transportada para a generalização que o nosso olhar preconceituoso costuma realizar por conta da cor da pessoa, da sua religião, profissão, naturalidade, tipo de roupa que veste ou mesmo da cor com que pinta o cabelo.

 

Infelizmente nos esquecemos que, por detrás das aparências transitórias da carne, somos todos Espíritos de mesma essência e propósito, ainda que em etapas diferentes da caminhada evolutiva individual.

 

O segundo vídeo retrata a precipitação que temos ao concluir sobre os fatos, antes de analisá-los com cuidado e profundidade. No caso, tratava-se de um programa de novos talentos. Todavia, no palco da nossa própria existência, não nos preocupamos em considerar todos os fatores da vida de alguém e julgamos a partir de uma percepção rasa e fria das circunstâncias.

 

E há grande risco de errar quando julgamos precipitadamente…

 

Esquecemos que aquela pessoa, assim como nós, sofre das mesmas dificuldades, das mesmas imperfeições, necessitando também do mesmo acolhimento que queremos receber.

 

Em muitas ocasiões, movidos por uma construção cultural e social que impõe padrões e estereótipos, julgamos o outro sem ao menos dar oportunidade para que o outro se mostre a nós.

 

A forma como enxergamos o mundo diz muito sobre o mundo que encontramos hoje. Daí surgem grandes desafios para a implementação de uma cultura de paz em nossa sociedade.

 

O preconceito e a intolerância são filhos do julgamento que realizamos e que torna as relações violentas, instáveis e questionáveis do ponto de vista da confiança.

 

Devemos lembrar que a cultura de paz não está apenas na ausência das guerras feitas pelas armas, mas na destruição dos canhões que existem nas relações entre as pessoas.

 

Precisamos nos desarmar mais, para nos dar a chance de amar mais.

 

 

O exemplo de olhar caridoso

 

“Quem dentre vós estiver sem pecado atire sobre ela a primeira pedra”
(João 8:7).

 

Essa célebre frase de Jesus, dita no episódio da mulher adúltera, representa grande ensinamento, muitas vezes esquecido por nós.

atire a primeira pedra quem estiver sem pecados

 

Em tempos em que intimidade e privacidade são cada vez mais substituídas por uma grande exposição, deparamo-nos com muitos julgamentos, muitos dedos apontados. Vestimos a beca de juízes e nos sentimos no direito de condenar atitudes, comportamentos, pessoas.

 

Andrei Moreira faz uma reflexão profunda dessa passagem bíblica e alerta que

 

“… Jesus escrevia na areia do coração deles as faltas morais que projetavam na mulher enquanto se esqueciam de si mesmos e fugiam dos seus complexos de culpa, encontrando a quem crucificar moralmente em seu lugar. Jesus despertava-lhes a consciência. Quanto menos lida com suas próprias faltas e quanto mais punitivamente trata a si mesmo (…), mais o homem se torna rígido e rigoroso com as faltas alheias, ressaltando-as e punindo-as com palavras e atos condenatórios (…)”

 

Ao proferir tais palavras, Jesus nos convidou a uma viagem interior, para buscar dentro de nós o que estamos projetando nos outros, acolhendo em nós também as nossas sombras.

 

Mas a viagem não para por aí. Quando Jesus se viu sozinho com a mulher, disse: “Nem eu te condeno. Vai, e a partir de agora não peques mais”, provocando, a partir daí, o caminhar reto e não a estagnação. Levantar e prosseguir, buscando acertar, amando e respeitando os limites de cada um e de nós mesmos.

 

Não há como se esquivar à ideia de que por trás de um erro há uma pessoa, um passado, uma história. Há dores que somente a pessoa e Deus podem mensurar. Lançar um olhar de dignidade e compaixão é o mínimo que nos cabe. Esse é o exemplo dado pelo Cristo.

 

Aliás, a caridade que tanto pregamos pode ser verdadeiramente vivenciada, quando paramos de julgar o outro, afinal, como esclarecem os Espíritos na questão 886, de O Livro dos Espíritos, a verdadeira caridade consiste na benevolência para com todos, perdão das ofensas e indulgência para com as imperfeições alheias.

 

Tudo isso não significa que os desvios merecem nosso apoio, já que não podemos ser coniventes com os enganos.

 

Emmanuel, no livro “Caminho, Verdade e Vida”, relembra que “Cristo ensinou a paciência e a tolerância, mas nunca determinou que seus discípulos estabelecessem acordo com os erros que infelicitam o mundo. (…) legou o último testemunho de não-violência, mas também de não-acomodação com as trevas em que se compraz a maioria das criaturas”.

 

E para finalizar, trazemos Joana de Ângelis, que, sabiamente, nos deixa valioso conselho: “se convocado inesperadamente à posição de inquisidor ou julgador implacável, pergunta-te: ‘Que faria Jesus em meu lugar?’, e aplica o balsâmico medicamento da esperança sobre a ferida pútrida do padecente, acenando-lhe com o amanhã de bênçãos que a todos alcançará”.

 

 

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SAIBA MAIS

 

Gostou do assunto? Quer se aprofundar? Quer mudar o mundo? Conhecer mais? Vá até as obras citadas e leia na íntegra:

 

– “Autoamor e outras potências da alma”, Andrei Moreira e Dias da Cruz. Cap. 9: A mulher “adúltera” Pacificação e Acolhimento Integral.

– “Caminho, verdade e vida”, Francisco Cândido Xavier e Emanuel. Cap. 7: Tudo novo.

– “Celeiro de bênçãos”, Divaldo Pereira Franco e Joana de Ângelis. Cap.19: Condenação e Sanção.

– Vídeo sobre a passagem bíblica da mulher adúltera https://www.youtube.com/watch?v=UErfcuWrqq4

 



Uma resposta para “Quantas pedras você já atirou antes de ler este post?”

  1. Maria Orletti disse:

    Parabéns aos autores! Muito esclarecedor e reflexivo o texto!

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